segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Trecho # 4.


(...) outra vez disseste-me que, na vida real, eu não agüentaria uma semana contigo. Ou talvez eu tenha inventado que tu me disseste isso. Pouco importa. Posso ter inventado tudo, menos o fulgor perfeito dos nossos corpos juntos. Uma vida inteira não basta para apagar da pele o peso magnífico desse fulgor. Só sexo, disseram-me as amigas íntimas, quando eu ainda chorava com elas a saudade do êxtase. Só sexo, fogo e palha, talvez tenham razão. Mas é disso que trata a vida, a minha vida: só sexo, Contigo. O prazer que o meu corpo conhece é o que aprendeu no teu, e foi esse que o meu corpo ensinou aos outros homens, aos vários em que tentou enganar a tua ausência, ao único que soube contornar a tua ausência para permanecer em mim. Todas as noites me acaricio com os teus dedos, fecho os olhos e sugo os teus dedos sob o contorno dos meus e conduzo-te pelo meu corpo como tu me conduzias. Todas as noites rebolamos da cama para o chão e do chão para cima da cômoda do teu quarto e para a mesa da sala e para as lajes frias da cozinha, todas as noites percorremos abraçados a casa velha onde já não moras, a casa velha que se calhar já se desmoronou sem a nossa ajuda. Todas as noites tu entras em mim por todas as portas, a tua língua silenciosa desperta vertigens desconhecidas nas partes secretas das minhas orelhas e das minhas pernas e dos meus pés. Todas as noites sinto o castanho do teus olhos grandes dissolvendo-se nos meus como uma felicidade quente, imensa, vejo os teus quadris estreitos de rapaz dançando sobre o redondo do meu ventre, das minhas nádegas, todas as noites os teus dentes mordem o meu pescoço no sítio exato em que o meu corpo guardava a última fechadura, todas as noites volto a subir a esse monte dos vendavais só nosso. Só sexo, seja. Tantas vezes te pedi: “Diz-me que me amas, diz só uma vez. Mesmo que seja mentira. Diz-me. Só para eu guardar o som da tua voz a dizer essas palavras”. (...)

***

Trecho do conto "Só Sexo", presente no livro Fica Comigo Esta Noite de Inês Pedrosa, escritora portuguesa que me foi apresentada pela amiga de trocentos milianos (a gente estudou o ginásio juntos!) Natascha Paiva, que atualmente ministra o workshop de análise de texto "Literatura e Erotismo: Corpos Escritos" - que felizmente estou participando, portanto aguardem mais trechos... er.. quentes haha.

Um comentário:

carolvelvet disse...

vc viu, é esse o caminho :)