segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Trecho # 3.


Ainda se mata e bate bastante por motivos cornológicos no Brasil, mas a verdade é que se trata de prática cada vez mais démodé, politicamente incorreta e inconcebível para uma pessoa realmente moderna. (...) Tanto assim que até mesmo no Nordeste, onde, quando eu era menino, chamar alguém de corno rendia invariavelmente peixeirada e provável absolvição do peixerador por um júri popular, a maneira de encarar o tema mudou muito, tanto assim que há notícias de acalorados concursos de cornos em Pernambuco, além de clubes de outras entidades da categoria. Na praia do Forte, na Bahia, onde estive faz alguns anos, me informaram, garantindo absoluta veracidade, sobre o disputadíssimo troféu Corno do Ano. Estavam até estudando uma reformulação do regulamento, para evitar problemas como o ocorrido no ano anterior, em que o irresignado segundo colocado fez um discurso de protesto, devolveu o diploma (o troféu principal é um chapéu com dois vistosos chifres de zebi a ornamentá-lo) e quase quebra tudo.

- Ele de fato era e ainda é um grande corno - me disse meu informante - Não se pode negar o valor a ele, é corno há muitos anos, tem uma grande tradição. Mas deu azar dde pegar um concorrente imbatível, um coroa viúvo, pai de três filhos grandes, que casou com uma moça uns quarenta anos mais nova, que não só começou a dar corno nele com toda a vizinhança em menos de um mês como não poupou nem os três enteados, passou os três nas armas! Aí você tem de admitir que não tinha competidor à altura, é caso de Guinness. Este ano eu acho que vão criar um troféu especial pelo conjunto de obra, para ver se ele se consola, ele merece.

(...)

Outro dia mesmo, no boteco, um dos companheiros de mesa, vítima de memorável corneamento que, apesar de longínquo no tempo, ainda hoje é lembrado, lamentou que não se pode mais contar piada de português, piada de japonês, piada de negro, piada de homossexual, piada de anão, piada de médico, piada de nada. Mas piada de corno podde, queixou-se ele ressentido, todo mundo curte com a cara do corno. Por que tão injustiça? Isso o entristecia.

- Não fique assim - consolou-o uma das senhoras presentes.
- É simples, é porque não é minoria.



***

Trechos das páginas 60, 61e 62 de "O Rei da Noite", novo livro de crônicas do João Ubaldo Ribeiro. Recomendo bastante para quem tem bom humor e curte uma boemia. "Água morro abaixo, fogo morro acima e mulher quando quer dar ninguém segura".

Um comentário:

sol_moras_segabinaze disse...

Outro dia cruzei com o João Ubaldo no Leblon, onde ele fazia a sua peregrinação botequinesca dos sábados (sem beber, só no guaraná). Eu, ao contrário, já abastecido com umas e outras, lancei um "viva joão ubaldo ribeiro!". Ele deu risada, e só depois percebi que a exaltação se parecia foneticamente com o seu famoso livro "Viva o povo brasileiro!".