terça-feira, 8 de setembro de 2009

Trecho # 9.



Já faz um bom tempo, estava em algum inferninho na cidade conversando sobre literatura com o Maurício Fleury, quando ele, empolgado com o papo, tira da mochila o livro "Tanto Faz" de Reinaldo Moraes e pergunta: "já leu?". Respondi que não, no que ele, numa generosidade ímpar, me dá o livro: "pega pra você, lê e depois escreve alguma coisa no teu zine". Foi o que fiz. Esse foi um dos melhores livros que já li em toda minha vida. De livro nacional, esse é o melhor. Portanto foi com grande felicidade que recebi a notícia de que o Reinaldo Moraes ia lançar um novo livro com quase 500 páginas.

O livro saiu uns meses atrás, se chama Pornopopéia e não tem melhor resenha do que a publicada pelo Daniel Benevides aqui: "O catatau (480 páginas) é antes de tudo muito engraçado, daqueles que fazem o leitor rir alto no metrô e depois olhar em volta embaraçado. Os excelentes diálogos ajudam e muito, no tom natural da linguagem bem-humorada da rua, cheios de gírias, gracejos toscos e onomatopéias. E também a verve desenfreada do narrador, mezzo culta, mezzo maloqueira, mezzo metalinguística.".

Costumo ler livros de madrugada e diversas vezes me peguei gargalhando e me cortocendo de rir com certos trechos. Para quem curte boemia, o livro consegue ser ainda mais engraçado. Foi difícil escolher um trecho do livro. Tem muito sexo explícito, quase toda página praticamente. Papo de drogas é o livro todo, então segue um trecho nesse estilo.

Páginas 27, 28, 29 e 30.

"Falando em pré-lógico, acabei de pegar uma peteca com o Miro. Tava precisando sair dessa lucidez de rodapé que me azucrina, me anula, me seca a medula - be-bop-a-lula. Um pozinho chuta o pensamento pro alto e é de lei pra quem precisa varar a noite escrevendo roteiro de embutido de frango.

Liguei pro Miro e em menos de meia hora ele tava aqui na frente do prédio se anunciando com as buzinadinhas bandeirosas de praxe. Traficante que buzina na porta do cliente é o fim da picada. Não é à toa que o desgraçado já foi preso meia dúzia de vezes. Por que ele não bota logo um alto-falante na capota do carro, como o cara das pamonhas? "Olha lá freguesia! Cocaína fresquinha dos Andes!"

Vi por uma fresta da veneziana basculante que o Miro tinha vindo dessa vez com um Corsa preto de quatro portas equipado com um ridículo aerofólio na traseira. Das últimas vezes, que eu me lembre, era um Fiat Uno vermelho- desbotado. O modesto burocrata que tirou esse Corsa num consórcio e cometeu a imprudência de estacionar a jóia num trecho escuro duma rua de pouco movimento - na Vila Madalena, aposto -, com
centenas de prestações por pagar, tá agora a pé ou de ônibus, sonhando com um esquadrão da morte específico pra ladrão de carro. Dois Corsas pretos na minha vida num espaço de 24 horas: esse do Miro, de hoje, e o de ontem, da Sossô, idênticos, com exceção do aerofólio absurdo. Coincidência pífia, mas coincidência. Sou desses panacas que ficam encanados com coincidências, buscam analogias do arco da velha, augúrios, agouros, não sossegam enquanto não extraem algum sentido dos eventos aleatórios. Dois Corsas pretos. Sinal de alguma coisa - além de que a GM andou vendendo Corsa preto pra caralho nos últimos anos.

Saí da produtora, passei pelo Adermilson, o porteiro da noite que tinha acabado de chegar pro turno das corujas, e ganhei a calçada, coração batucando de ansiedade pré-cocaínica, rumo ao Corsa preto do meu Messias particular em eterno e cotidiano retorno, descontados os períodos que ele passa em cana ou sumido da praça, quando, então, me vejo obrigado a acionar algum outro dos milhares de vaporetos em atividade aqui em Nasópolis.

O Miro tinha estacionado do outro lado da rua, que é de mão única, debaixo de uma árvore, a roda esquerda da frente escalando uma entrada de garagem em aclive acentuado, estreitando a passagem dos pedestres na calçada. A mulata loira e popozuda que estava do lado dele, de jeans e sandália de salto alto, saiu do carro pra se meter no banco de trás, junto com outras duas gurias. O Miro ultimamente deu de aparecer acompanhado por um séquito variável de meninas brancas, morenas ou negras, muito jovens todas elas, uma ou outra de menor, aposto. Até onde eu sei, ele continua casado. A mulher do cara é uma escrava, nada menos.

Conheci a coitada quando fui com o Nissim pegar pó na casa do Miro uma vez, faz tempo. Era num prédio da Amaral Gurgel, "segundo travesti à direita, pra quem vem da Jaguaribe", como ele gostava de especificar. Nem posso dizer que conheci a mulher, que só vi de relance. Mas deu pra sacar que era lindinha de cara, e alta, uns puta peitão, grávida na época e rodeada de uma penca de crianças com graus variáveis de
morenice. Deve ter sido bem gostosa antes de se casar com aquele megatraste branquelo e detonar uma miniexplosão demográfica naquele apê de quarto e sala. Diz o Nissim que a mulher do Miro foi passista da Vai-Vai antes de cometer a burrice de se juntar com o figura. Agora, obedecia calada aos comandos do maridão:

"Tira essas criança daqui, porra."

"Vai comprar cerveja e cigarro. E vê se não demora, porra."

"Cadê o isqueiro, porra?"

Deve ter sido treinada naquele mutismo servil à base de muita porrada, a pobre da ex-passista. Não me lembro de ter ouvido o Miro pronunciar o nome dela durante todo o tempo em que estivemos lá. Ela mesma deve ter esquecido o próprio nome. Devia achar que seu nome agora era Porra. Dona Porra. O Nissim, íntimo da casa, cumprimentou a "comadre" com dois beijinhos secos de bochecha. Tá louco, o Nissim. Eu não tive coragem nem de olhar direito pra ela, quanto mais de dar beijinho. Vai
saber o que se passa na cabeça dum marginal com uma capivara da altura dele no fórum criminal e um berro sempre à mão em algum lugar.

Abri a porta do passageiro e entrei no Corsa. O assento ainda guardava o calor da bunda autêntica da falsa loira. As três girls cochichavam aos risos e gritinhos atrás da gente. Não olhei nem dei boa-noite pra nenhuma delas. Em se tratando do Miro, mais vale seguir a regra magna dos presídios de jamais olhar pras mulheres dos companheiros durante as visitas. Nem pra mãe. Nem pra avó.

Falando ao celular, o Miro me ofereceu um aperto de mão convencional.

Ele odeia que venham cumprimentá-lo com toques rituais de mano, se o cara não for um mano autêntico. Uns dez anos atrás, quando comecei a pegar pó com ele, o Miro ainda exibia uma notória boa-pinta cafajeste, capaz de atrair passistas esculturais, entre outras beldades de todas as classes sociais.

Os olhos verdes ajudavam bem nisso, herança italiana por parte de pai. Duns anos pra cá deu pra engordar, o desgraçado. Anda com uns camisões largos e coloridos de gângster cubano em Miami pra disfarçar a pança - e um eventual berro.

Naquela época a gente ligava pro bipe e deixava recado pra ele retornar. O maluco ligava de volta, ou não ligava, era imprevisível, e marcava o "aponto" num bar da Pompéia. Aparecia a pé, sempre meio encardido. Acho que passava dias e noites com a mesma roupa, sem teto ou banho. Olhar sempre vidrado, de pó e manguaça. A certa altura, de crack também. Você nunca via de onde ele vinha. De repente, o cara brotava do chão ao teu lado. Daí, grana vai, peteca vem, e, de repente, cadê o Miro? O diabo já tinha se desmineralizado e, de volta à nave internarcótica, se abalava pra outra galáxia fissurada a uma velocidade hipertraficônica.

Numa de suas longas sumidas, fiquei sabendo que ele tinha assaltado um hotel do centrão junto com uma puta, operação que terminou com o gerente ferido a bala. Depois de dois anos preso, um freguês dele, advogado, conseguiu descolar uma condicional. O Miro chegou a morar com essa puta do assalto, se não me engano. Me lembro duma quitinete lúgubre na alameda Glete, no coração dos Campos Elíseos, onde eu e o Nissim fomos pegar pó numa noite gelada de agosto. Com o único elevador quebrado, tivemos que encarar treze andares de escada com um vento encanado de congelar cu de pingüim. Por sorte não encontramos nenhum cadáver putrefato pelo caminho, só baratas.

Eu não faria isso de subir treze andares gelados de treme-treme nem pela mais bela puta da putandade, mas fiz pela cocaína. Não cheguei a conhecer a então madame Miro, que devia estar manobrando umas pirocas na rua pra sustentar o ócio e os vícios do salafra.

Teve uma época que ele marcava os "apontos" em botecos do centrão, sempre por volta de nove da noite. Tinha dado alguma treta na Pompéia e ele precisou se mandar de lá. A transação agora rolava pela Rego Freitas, Amaral Gurgel, Cesário Motta, Marquês de Itu, Major Sertório. A gente ficava tomando cerveja até o Miro dar as caras, durante meia hora, uma hora, até duas horas já esperei o Miro, frigindo na fissura, com a boca do lixo em volta fervendo de putaria, polícia e crime.

O Miro já nasceu traficante. Posso ver o Mirinho baby passando as primeiras petequinhas pros colegas de berçário, sob a vista complacente de uma enfermeira subornada ou seduzida por ele. Como todo traficante, o Miro se aproveita até o último fiapo do poder que exerce sobre a clientela fissurada. Ele adora seu papel de ansiado das gentes, trazendo mais uma vez a peteca divina, a salvação em pó, o acesso rápido aos portais do nirvana dopamínico em troca de grana viva e, não raro, algum afago sexual da parte de algumas consumidoras mais cheias de gratidão e amor pra dar. Só eu conheço umas duas."


Na foto, publicada no Estado de São Paulo, você tem Reinaldo Moraes na Mercearia São Pedro, que aliás é citada no livro. "Pornopopéia" é quase um tributo à cidade de São Paulo. Vários lugares conhecidos hehe.

Um comentário:

R disse...

e ae Gilberto, saca o cd 2009 Lsdiscos

Primeiro caderno de rascunhos dos Pós-Ravers

http://www.sendspace.com/file/ pxe0rv